Pajelança



É provável que a palavra Pajé venha da raiz pa-y = profeta, adivinho, curador, sacerdote, xamã. Assim, o termo pajelança é um termo genérico aplicado às diversas manifestações do xamanismo dos povos indígenas Brasileiros.

Pode ser divido em pajelança indígena (rituais indígenas) e pajelança cabocla, que são práticas religiosas (não índígenas) mais comuns no Norte e Nordeste brasileiro. Logo, de uma maneira ou de outra, refere-se aos rituais nos quais um especialista entra em contato com entidades não-humanas (espíritos de mortos, de animais etc.) com o fim de resolver problemas que acometem pessoas ou coletividades.

Segundo Antonio Jorge Thor, estudioso dos mistérios amazonenses,  " um aspecto curioso existente entre o xamanismo e a pajelança é que nos Estados Unidos, quando se fala em xamanismo, muitas linhagens dos xamãs são mulheres. Já no Brasil não; aqui pajé é predominantemente do sexo masculino - primeira geração, que passa de pai para filho. Assim, para ser um pajé, o candidato deve ser um médium e um paranormal ao mesmo tempo. Ou seja, deve ter muita força mental (paranormalidade) e conseguir estabelecer uma comunicação com espíritos antepassados (mediunidade). Juntos, o pajé ganha a condição de mexer com a bioenergética e com as partículas biocósmicas (que provocam a expansão da consciência fora da matéria), em prol do desenvolvimento do espírito".

É sabido que, mesmo assim, entre as diversas tribos varia muito o conceito de pajelança, mas ainda sim é possível estabelecer algumas semelhanças: o misticismo  e o segredo. Por isso, o pajé penetra na área da encantaria, uma outra vertente da grande Magia Natural.

Assim, podemos dizer que a pajelança é uma forma de magia nativa da Amazônia e dos índios brasileiros, tipicamente indutiva, atuando sobre qualquer elemento vivo e mantendo estreita relação com os demais reinos da natureza: mineral, vegetal e animal. É praticada por curandeiros (principalmente pelos pajés), com base no xamanismo indígena.

Pelas suas ações, o xamã tenta estabelecer contato com outras formas de existência através de comunicações com entidades sobrenaturais, procurando restabelecer o equilíbrio perdido entre a natureza e a mente. Esse processo envolve curas, exorcismos, orientações e outros atos com objetivos diversos.

Além disso, a visão holística da cultura xamanista não pode ser esquecida, fornecendo ao pajé um importante elo que o integra ao todo. Nesse sentido Fritjot Capra, XXX, em ponto de Mutação, sintetiza: "A característica predominante da concepção xamanista de doença é a crença de que os seres humanos são partes integrantes de um sistema ordenado em que toda a doença é conseqüência de alguma desarmonia em relação à ordem cósmica. E, por vezes, até interpretada como castigo por algum comportamento inadequado".

A verdadeira pajelança é restrita a uma minoria que ostenta os segredos e poções mágicas que rejuvenescem, curam, matam, provocam viagens astrais e outras grandes iniciações. Atualmente, existem poucos pajés desse tipo no Brasil. A presença da mulher é vedada.

Já a pajelança paralela (segunda geração) envolve as várias formas de curandeirismo popular - principalmente as rezadeiras e benzedeiras, que trazem no sangue a eugenia nativa, além de estar representadas em alguns rituais da Umbanda.

Finalmente, a pajelança afim (terceira geração) engloba o curandeirismo popular originado da pajelança mater, porém com atuação mais aberta que a anterior. Apresenta influências visíveis de outras magias, seitas, misturando-se a -se a outras culturas folclóricas e crendices de povos diversos. É a pajelança com maior influência no Brasil, e suas benzedeiras, que utilizam ervas e rezasa para tirar o "quebranto" , muitas vezes conseguem imbuir-se de dons que são inerentes aos pajés. Já as rezadeiras, embora sejam incluídas nesse grupo, são originárias do Nordeste, submetendo-se assim a uma influência maior do catolicismo.

Por isso, a pajelança combina ainda elementos do catolicismo popular, das culturas indígenas, do Tambor de Mina e da Encantaria, da medicina rústica e de outros componentes da cultura e da religiosidade popular. Caracteriza-se, entre outros aspectos, pela ênfase no tratamento de doenças e aflições, por um transe de possessão característico, com "passagem" de diversas entidades espirituais em uma mesma sessão, e pela presença de certas práticas como o uso de tabaco e outras substâncias para defumação. Esses elementos associam a pajelança cabocla a outras manifestações religiosas populares encontradas no Norte e no Nordeste brasileiros, como o Catimbó/Jurema, o Toré e o Candomblé de Caboclo.

A pajelança deve ser usada por quem realmente a domina, manipulando o universo de magias que a constituem. A princípio todos os métodos usados são indutivos, sincronizados a um objeto (instrumento de poder) e resguardado pelos dons natos do pajé.

Um elemento indispensável na pajelança é o maracá. O maracá de um xamã é recebido ou confeccionado durante a iniciação, sendo, portanto, sagrado para ele, em alguns casos é passado de pai para filho; ou ainda, o "escolhido" é induzido a achá-lo mediante as regras impostas pelo ritual de iniciação. Outro elemento fundamental é o tauari , uma espécie de charuto natural semi-oco que ajuda o pajé a defumar o local ou a pessoa em questão. O charuto, com sua fumaça cheirosa, objetiva imantar o ambiente e criar uma atmosfera toda especial, para facilitar os cantatos que o pajé queira fazer.

Dentro dessa estrutura a pajelança é associada a rituais de grande beleza e magia, que extasiam a todos que se envolvem no processo de participação, ou mesmo como meros observadores.

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